Eu acho que poucos álbuns foram um acontecimento na minha vida como foi o brat, e não só porque ele é verde, então, esse provavelmente é muito menos um review técnico e sério do álbum, e muito mais um relato da minha experiência com a música dele. O último álbum que eu lembro de me sentir genuinamente dessa maneira, foi, ironicamente, o Electra Heart, da Marina and the Diamonds, e eu sinto que os dois tem bastante coisas em comum, pro bem e pro mal. Apesar de eu provavelmente ignorar as partes mais negativas no decorrer desse texto.
Brat é um álbum intimista e comercial, e essa contradição é o que faz ele ser tão interessante, ao mesmo tempo que Charli XCX compartilha questões como repensar sua carreira por uma gravidez, inseguranças com o corpo e outras questões mais delicadas, o próprio álbum é uma persona, do começo ao fim, da divulgação pré-lançamento às entrevistas pós-lançamento, nós vemos Charli XCX, mas também vemos uma persona, roupas, óculos escuros, cores e, principalmente, pessoas, são o ponto central desse álbum, ela é tão Julia, afinal.
Sobre o branding e o marketing do álbum, eu indico esse vídeo, eu não vou falar sobre isso nesse post, esse post é só um compilado de pensamentos e sentimentos meus, não é uma análise de verdade, e se você não concorda, legal!
Gosto de comparar esse álbum ao Electra Heart não apenas porque os dois me marcaram de jeitos muito parecidos, nem porque comparar a Charli e a Marina foi o maior momento das tumblrinas, mas porque ambos são uma narrativa, os dois são a jornada de um personagem, uma persona que o artista incorpora durante toda a era do álbum, apesar disso, Brat enquanto uma personagem é essencialmente diferente pois é uma parodia de si mesma. Charli XCX, sob a produção de nomes como SOPHIE e A.G. Cook, marcou a construção do que a gente chama hoje de hyperpop, um termo controverso que pede seu próprio post, já que alguns acreditam que ele surgiu nomeado em uma playlist do spotify e não existe maneira de categorizar o gênero correta e coerentemente.
Brat, no entanto, não é hyperpop. Por mais divertido que seja classificar toda PC Music e gêneros experimentais como hyperpop, e brat tenha as mesmas características autorreferenciais que o hyperpop costuma ter, esse é um álbum que se inspira muito mais na cultura clubber e de rave, com faixas que sampleiam clássicos desses mesmos estilos que, apesar de também inspirarem o que hoje é o hyperpop, são essencialmente diferentes desse último pelo elemento da comunidade.
Enquanto o hyperpop se constrói em um entorno digital, principalmente influenciado pelo contexto pandêmico e pós-pandêmico, a cultura clubber tem décadas de experiência, história, referências e um legado físico, é isso que charli xcx emula em seu álbum, set da boiler room, conta do instagram de divulgação fechada, brat wall e collabs que mais parecem mensagens de texto trocadas entre os artistas.
Charli cria no brat uma sensação de "you had to be there" para um público que, até então, tinha como espaço fóruns do soundcloud, reddit e trends do tiktok com filtro de saturação no máximo.
Escolhi colocar as imagens da festa de aniversário que andam sendo controversas recentemente se são ou não forçadas, se são ou não um sintoma de como tudo é performativo e não existe volta para uma cultura de diversão, festas e um retorno do "indie sleaze". E eu concordo com todas essas coisas, mas mais importante, eu acho que não importa.

É impossível esperar que uma artista rica e bem sucedida como charli xcx não seja performativa, na divulgação de um álbum que é essencialmente uma peça de arte performática, o problema não são as cameras, os celulares, o problema é a nossa expectativa de que qualquer uma das pessoas que a gente não conheceu e momentos que a gente não viveu, sejam tão reais quanto aqueles que a gente já não estava vivendo quando ansiava por eles. Paris Hilton já era uma personagem antes mesmo da Charli XCX.
Acho que a sensação que o brat cria de que essas pessoas estão vivendo, se divertindo e criando memórias é exatamente onde ele parodia a si mesmo, é um álbum sobre ser artificial e sobre ser real ao mesmo tempo, é nessa controversia de a gente precisar estar em momentos que a gente nunca vai estar, ao mesmo tempo que todo mundo já teve um momento de "amiga, eu não te odeio, eu ME odeio", todo mundo já se olhou no banheiro da balada e colocou a língua pra fora enquanto não conseguia entender que música tava tocando lá fora, mas ninguém é a Charli XCX, e a Charli XCX é uma performer dela mesma.
Eu podia continuar escrevendo e escrevendo sobre personagens e performances, mas eu acho que esse texto não é sobre isso, ele é um pouco sobre o que eu escrevi um tempo atrás no meu texto sobre por que eu gosto tanto de fotografias, imagem é memória e fantasia, é imaginar a sensação que aquelas pessoas tiveram quando aquilo foi registrado, é relembrar como você se sentiu, mesmo sendo uma mentira da sua nostalgia, a mesms coisa acontece com o som, com a música que evoca cheiro do passado.
Brat e Electra Heart, pra mim, narram duas histórias sobre memória, desejo e pertencimento, eles são sintomáticos das estéticas de sua época, e os que escutam "mean girls" se perdem da crítica assim como todo mundo que ouvia "teen idle", igualmente para um público que, até então, só tinha o tumblr.
A diferença essencial, pra mim, é que hoje é inútil discutir sobre o caráter performático de qualquer uma dessas artistas, a sensação que elas evocam é uma, seja de querer ser 365 party girl, seja de querer fugir e se reconstruir como a Electra Heart. Somos adultos agora.
Você não precisa estar lá, você pode estar em outros lugares. A cultura clubber nunca morreu, diferente dos variados micro estilos que a gente tem o tempo inteiro, o Madame ainda existe, a Zig ainda existe, e se algum dos meus amigos acreanos lerem o texto, o que eu duvido muito, a Studio ainda existe, as nossas ruas ainda existem, a gente ainda existe. Pra mim, o brat é um lembrete de que a gente tá vivo e tem espaços pra existir e se divertir, fora do tiktok, fora da internet.
Nós somos reais, nós somos performáticos. Todos somos personagens, memórias, momentos, e esse álbum pra mim é sobre isso, ele começa e termina no mundo real, com pessoas reais, mesmo que, no final, ainda seja um álbum comercial, emulando experiências e influenciando a gente a repensar uma cultura que tá viva todo sábado à noite.
AMEIIII, arrasou
ResponderExcluiryou had to be here baby!
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