Matéria prima: Uma reflexão sobre a condição material humana

     Para o meu querido amigo Polônio, esse texto é o primeiro de um duo sobre a condição humana da encarnação e o papel de nossos corpos no sofrimento e na estética da performance (trans)masculina da feminilidade. 

    Gostaria de começar o texto com o questionamento, qual a matéria prima dos recursos humanos? Aqui, o que quero chamar de recursos humanos não é o departamento que cuida de desfazer as briguinhas internas da sua firma, não é a gestão de pessoas, mas, realmente, o que compõe os recursos que nos são disponíveis na nossa existência isolada do eu e do outro. Respondendo minha própria pergunta, que como qualquer autor não queria sua resposta de qualquer forma, a matéria prima dos recursos humanos são nossos corpos, e se você achou que eu não ia falar de capitalismo, estava errado! Sendo, então, nossos corpos, também, nossa matéria prima, o primeiro e o último recurso primário que vamos transformar em diversas expressões e versões diferentes de nós mesmo ao longo de nossas vidas, e estando reféns de um sistema que prevê a dominância e conformação de nossos corpos a um padrão de estética, sexualidade e produtividade, ele é também a matéria prima de nossos sofrimentos, a matéria prima das angústias que permeiam a razão de nosso primeiro choro ao nascer (se você não nasceu dopado como eu): Existir fisicamente nesse mundo, sendo atravessado pelas dores de possuir um corpo físico e explorado. 

    Estar encarnado é sem sombra de dúvidas a maior parte de onde vêm os nossos sofrimentos, existir e ser atravessado pelas coisas que não somos nós mesmos, o que só é possível através de nosso corpo físico e palpável, mesmo corpo físico que torna nossa psique e pensamento possíveis, através do cérebro, por isso, é impossível que façamos qualquer leitura do sofrimento humano sem levar em consideração que somos primariamente carne, é que é dessa carne que nasce qualquer sofrimento que venhamos a experienciar num nível meta-físico. 

    É no corpo que se sente a falta, é no corpo que se somatiza, e se na psicanálise o discurso sempre foi muito privilegiado, se voltando sempre para a palavra dita, não se pode esquecer que é da língua, da boca, das cordas vocais que saem as palavras que nascem de nossas sinapses. No fim, mesmo o mais meta-físico e espiritual dos sofrimentos nasce e morre no corpo. Estar vivo é sofrer e ser atravessado pelas demandas que o mundo nos impõe. É esse paradoxo, entre corpo e mente, que Assoun descreve quando fala do corpo em psicanálise:

"Ele designa ao mesmo tempo uma profundeza, um dentro insondável, e uma superfície, um horizonte de visibilidade insuperável. No plano terminológico, essa distinção recorta, em parte, a da libido e do corpo. (...), na libido relativa aos mitos do nascimento, ou ainda como fonte das excitações internas (...). O corpo em referência aos processos somáticos, ao próprio corporal. Esse paradoxo se resolve por um meio termo que relaciona a profundeza, de certa forma, com a superfície, a saber, o sintoma: aquilo que goza dos poderes da libido e que modifica o corpo. Os sintomas do corpo recaem, assim, na corporificação do sintoma, processo de encarnação que a histeria descreve de maneira privilegiada. O essencial é determinar de que maneira o corpo intervém nessa dialética do sintoma, da qual o corpo é um momento necessário, mas não um princípio constituinte. (Assoun, 1995, p. 177).

        Em psicanálise, como descrito acima, o corpo aparece com a mera função de sinalizar os sintomas histéricos que se apresentam de maneira somática, mas, Assoun já faz menção a compreender que a libido age sobre o corpo, e que é através do corpo que os desejos da libido se materializam, eu, Erik Amon, pessoalmente, levanto discordância ao psicanalista quando ele descreve que o corpo não é princípio constituinte, para mim, já mais familiarizado com as abordagens holísticas, o corpo é um momento necessário, mas é também um momento gerador do sofrimento humano. Já que é dele e por ele que nossos desejos nascem e se constituem, como escrito por Freud (1905b/1972, p.188): 

"(...) uma criança que está entretida com o sugar sensual procura no corpo e escolhe alguma parte dele para sugar - uma parte que é posteriormente preferida por ela por força de hábito; se ela por acaso tocar numa das regiões predestinadas (tais como os mamilos) esta sem dúvida retém a preferência (p. 188)"

        O "sugar sensual" aqui descrito, diz respeito, na constituição libidinal humana (que fala sobre desejo, não de ato sexual, apesar de também abarcar este), à fome, à busca pelo alimento e ao vício que o movimento mecânico do corpo que o bebê faz para se alimentar (o sugar) é capaz de gerar na corporeidade uma satisfação. 

        Encontramos hoje, já adultos, em nossas vidas diversos "sugares sensuais", ou seja, buscas do corpo para suprir necessidades que se tornam demandas psíquicas, sejam elas em literais sucções, ou em desejos que nos surgem conforme somos atravessados pela vida adulta. Se no bebê há a busca de sugar o leite materno, é aqui que eu volto ao capitalismo, a nossa busca incessante diária é a de sobreviver, de alimentar o corpo e suas necessidades básicas, que se tornam necessidades fúteis a medida que são sanadas, que se tornam necessidades românticas, e de diversas áreas que permeiam a vida e vão tomando maior complexidade em nossas experiências pessoais e interpessoais. O sugar vira trabalho, a busca pelo leite materno, se torna a busca pelo salário, se torna a busca por acalentar as necessidades, de se sustentar num mundo onde já não mais podemos chorar até conseguirmos o que queremos. 

            E assim, o corpo se vê preso, o corpo se vê perdido e inerte, o sofrimento de estar encarnado é, também, o sofrimento de viver, o sofrimento de existir, e é, no fim qualquer sofrimento que nos transpasse durante a vida.

            No entanto, não nos basta compreender de onde vêm nossos sofrimentos, e atribuí-los a necessidades básicas, e posteriormente culpabilizar o outro por não atender às nossas demandas. É preciso ir além, compreender o sofrimento de estar encarnado como uma dor advinda de causalidades deterministas só nos coloca em uma perspectiva psicologizante e disciplinadora, que gera discursos de aconselhamento e auto ajuda,  numa meta de produzir seres humanos "ajustados" e "produtivos", o sonho de finalmente sermos "funcionais". 

                Mas o que é ser funcional? Essa é uma pergunta que deixo ao leitor que pense sozinho, pois nem mesmo eu sei a resposta (deveria eu ter todas elas, afinal eu sou a vozinha que narra na sua mente, mas não tenho, e isso é falha humana do meu corpo). O que posso dizer, por outro lado, é que ser funcional existe num contexto onde somos engrenagem de um sistema inerentemente explorador, e que ter um corpo físico é ser explorado (exceto se for herdeiro, ou tiver o mínimo de berço para não se preocupar em morrer na rua), ser funcional é ser a engrenagem lubrificada que faz a roda do sistema girar, e por isso, nem todo corpo é um corpo útil. 

                O corpo útil é um corpo normatizado, é um corpo cis, branco, hetero, sem deficiência (mental e física), é um corpo capaz de produzir matéria prima de si, de ser força de trabalho, seja ele mental ou braçal, e é um corpo que produz matéria que normatize outros corpos, também, de nada adianta um corpo que reproduz revolução para os outros corpos, para os questionadores resta a luta da sobrevivência. O sofrimento de estar vivo. 

                Estar vivo é, também, performance. Para sobreviver precisamos diariamente nos conformar com as performances que nos são esperadas, seja na escrita de um e-mail, ou no tom de voz de atender o telefone, talvez em nossas vestimentas, ou até em nosso nome. Eu, como pessoa transsexual, sei bem que momentos devo ser eu, e em que momentos não há permissão para que eu o seja, estar encarnado em um corpo trans é um alvo desenhando bem no meio das minhas costas, existir, para mim, estar encarnado e continuar com meu órgãos vitais funcionando é um ato de resistência. E tantos outros corpos são assim, também, o corpo trabalhador e o corpo marginal, são os corpos vítimas de genocídios diários, seja ele literal ou metafórico. Excluir também é matar. 

                Encarnar é sofrer, é se ajoelhar às demandas do mundo pelo simples ato de sobrevivência, ter um corpo físico é sofrer todos os dias para mantê-lo em funcionamento, é ser explorado para alimentá-lo, ou sofrer futilmente por ter o alimento dado em suas mãos. 

                (in)Feliz é aquele que encarna num corpo capaz de tomar decisões baseadas no desejo, não na necessidade. In(feliz) é aquele que encarna num corpo que dói todos os dias para estar vivo e não se preocupa com maiores banalidades boemias. 

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