Se não sabe pra onde vai, lembre de onde veio

 

    Recentemente estive retomando minhas práticas religiosas, mas me sentia um pouco perdido, quando comecei eu tinha por volta de 15 ou 16 anos, estava procurando alguma coisa que fosse ocupar minha cabeça deprimida de adolescente, que fosse me fazer sentir único e completo, não encontrei as duas últimas, mas com toda certeza encontrei algo interessante para ocupar a cabeça, daí veio a junção pelo interesse em filosofia, psicologia e ciências humanas num geral e estava feita a festa... Hoje já não tenho a desocupação que tinha quando tinha 15 anos, tenho a mente conturbada pelas responsabilidades e pelo medo de meus esforços se mostrarem insuficientes, e enquanto escrevo percebo que não são muito diferentes as aflições imaturas das um pouco mais maturadas. Enfim, o que quero dizer, é que sinto que minhas angústias precisam tornar-se vontade, seja sublimadas em arte, ciência ou magia, e sinto que assim sempre será.

    De começo queria fazer tudo diferente, jogar fora a bagagem que eu tinha e denominei como rasa, queria "estudar de verdade", um hábito ruim que eu carrego é diminuir meu conhecimento baseado no que eu idealizo e fantasio que seja o melhor, e é geralmente só uma idealização fora da minha capacidade, ao invés de valorizar as coisas que eu conquisto. Um erro que estou aprendendo a superar, e é bem difícil. 

    Durante uma das minhas idas ao presídio fui apresentado a uma ferramenta interessante, um jogo idealizado por Elisa Larkin Nascimento, que reúne os símbolos africanos Adinkras, e faz uma comunicação com ditados e conceitos brasileiros. Em resumo, durante a dinâmica me deparei com a frase "se não sabe pra onde vai, lembre de onde veio" e, sinceramente, tenho carregado essa reflexão comigo para a arte mágica. Eu não posso jogar fora bagagem que tive até hoje, e tenho em um ato de nostalgia e medo de crescer revisitado minhas referências inicias, seja para o bem ou para o mal, serve principalmente para o meu crescimento. 

    E essa é uma reflexão importante em todos os âmbitos da vida, saber quem fui é importante para compreender que eu quero ser, de onde vêm os anseios do que eu pretendo construir, e o que é que me inspira em primeiro lugar a ser aquilo que hoje eu sou. Olhando para muitas das minhas bases percebo que não eram rasas, eram sólidas raízes e portas de entrada, mas nada além disso, não eram os enormes calhamaços que eu idealizava quando comecei o caminho das artes mágicas, e nunca serão, como aprendi no caminho científico que as vezes menos é mais e devemos trabalhar com aquilo que nos é real, com aquilo que está ao nosso alcance, sem ser perder de nossas raízes. 

    E é revistando minhas raízes que tenho compreendido como refazer o caminho que há muito perdi, reconstruindo minha pequena estradinha da bruxaria, revisitando vozes que me guiaram, palavras que me ensinaram, que hoje olho com outro olhar, não mais de baixo, não mais de longe, mas de igual pra igual, criticamente, reconstruindo e compreendendo valor onde antes não via e revisando o que antes eu valorizava como saber máximo. 

    Conhecer suas raízes é conhecer a si mesmo, e é através do conhecimento de mim e das minhas origens, de relembrar o que me inspira que tenho tentado me reencontrar, não posso abandonar tudo que já fiz em prol de idealizar um novo eu, pois eu sou tudo aquilo que já fui, eu sou um produto de mim e daqueles que me atravessaram. É relembrando o que eu fiz e como vivi, como sobrevivi que vou reconstruir minhas bases fortes e retornar a onde parei, ainda maior, ainda melhor, é sabendo de mim que serei ainda mais.




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